29/07/2010 23:25:03
 
 

Sua parte no milagre

Quando fui vendida, me senti uma mercadoria de pouco valor, alguma coisa da qual o dono até mesmo fica feliz por se ver livre dela.

Meu nome é ninguém! É, adotei esse nome desde o dia e que meus pais me venderam para umas pessoas que eu nunca havia visto. Esse foi o pior dia da minha vida. Pior do que aquele dia em que um homem tocou em mim pela primeira vez, como se fosse meu dono, e eu, sem nenhuma chance de lutar, abandonei-me em seus braços como um escravo amarrado no tronco desiste de gritar por liberdade. Quando fui vendida, me senti uma mercadoria de pouco valor, alguma coisa da qual o dono até mesmo fica feliz por se ver livre dela. Eu amava meus pais, gostava tanto dos meus irmãos! Hoje, eles são uma lembrança que ainda me faz chorar. Às vezes fecho meus olhos e me imagino no quintal da minha humilde casa, correndo com meus irmãos, rindo, brincando, ... Chego a sentir o cheiro do nosso suor escorrendo por todo o nosso corpo durante as nossas brincadeiras sobre o sol escaldante. Era tão bom! Ah, que saudade da minha boneca!

É verdade que ela estava um pouco velha, mas era uma ótima companhia. Hoje todo o meu passado ficou com um colorido ainda mais vivo. Isso acontece porque o meu presente é muito cinza e o meu futuro se apresenta tão negro quanto à densa escuridão. Mas os dias estão passando, lenta e desesperadamente inúteis; e eu tenho medo de que o pouco de alegria que esses lampejos do passado me trazem seja apagado pela dura realidade de ser escrava da prostituição. Essa realidade que me impede de sonhar e de viver. Eu existo, mas não sou ninguém; estou viva, mas não vivo. Ao olhar-me no espelho do fétido quarto que me confinaram, quase não me reconheço mais. Tenho apenas treze anos e estou neste inferno há mais de seis anos. Tento sorrir para mim mesma, mas minha alma se nega a fingir mais uma vez. Tento me imaginar no quarto que eu dividia com meus cinco irmãos, mas as marcas que aqueles homens horrorosos deixaram em meu corpo não me permitem voar nas asas da minha imaginação.

Oh, eu havia me esquecido de que não posso sonhar! Num esforço muito grande, busco bem lá no fundo do meu coração forças para trazer de volta a gostosa sensação das raras vezes que minha mãe penteava os meus cabelos. Tanto esforço em vão! A única impressão que consigo sentir é das mãos sujas e grosseiras dos muitos “clientes” que sou obrigada a atender todos os dias. Nessa hora tenho vontade de cortar todo o meu cabelo. Tolice, isso só aumentaria o contato nojento de mãos porcas em minha cabeça. Então, sem nenhum esforço, as lágrimas começam a correr em meu rosto... não posso controlar, e num instante estou chorando desesperadamente. Desespero! Esse sentimento tem sido a minha companhia inseparável. Ontem eu estava me sentindo muito mal. Meu corpo tremia; apesar do sol quente que entrava pela minúscula janela eu sentia muito frio. Minha cabeça doía muito e, mais do que nunca, eu não sentia nenhuma vontade de comer. Mas aquela mulher malvada entrou no meu quarto e pôs sobre a cadeira um prato de comida.

Ela me ordenou que comesse, eu tinha de melhorar porque os “fregueses não podem deixar de ser atendidos”. Eu comeria com prazer se naquele prato tivesse muito veneno. Pelo menos eu não seria obrigada a abrir os olhos e começar uma interminável noite de “atendimentos”. Essa foi apenas uma dentre tantas vezes que adoeci e nem mesmo sei como me recuperei. Entretanto, sinto que alguma coisa está errada. As outras mulheres disseram que isso é “coisa de Raabe” e que muitas morrem disso. Eu já quis morrer muitas vezes, mesmo assim, senti medo com a possibilidade de morrer jogada em um canto qualquer. Como se isso fizesse diferença em minha vida! Eu sou ninguém, e quem se importa com ninguém? Eu olho para o céu e me pergunto por que algum dentre os nossos deuses não faz qualquer coisa para nos ajudar. Será que todos eles estão ocupados e não têm tempo para se importar com as “raabes”? Quando eu era pequena vi meus pais fazendo oferendas para o deus deles, que era o meu também, mas eu não entendia direito nem ligava para aquilo. E hoje eu entendo menos ainda – se eles agradavam tanto a esse deus, como é que eu vim parar aqui? Esse pensamento me trouxe de volta à realidade do meu dia, isto é, da minha noite. Os homens começam a chegar – apesar de muitas vezes virem durante o dia nos incomodar, como se não tivéssemos nem mesmo o direito de dormir.

Será que algum dia vou me acostumar com esse tipo de vida? Eu acho que não, porque existe algo dentro de mim que, por mais que eu queira abafar, grita por liberdade, por vida! Eu sempre falo pra mim mesma: “Você é ninguém, e ninguém não sonha nem tem vontades. É só ninguém.” Um dia eu pensei: “será que em algum lugar do mundo existiria uma pessoa, uma só que seja, que pudesse se importar comigo?” Mas eu não quis pensar sobre isso, porque faz muito tempo que eu imaginei que esse alguém existia, e até hoje choro sozinha enrolada naquele cobertor velho e fedido. Engraçado, eu percebi que falo muito em alguém, alguma, qualquer, ... são figuras sem rosto... acho que é porque a minha vida é assim, sem “rosto”. Você consegue imaginar o rosto de “ninguém”? Eu tenho uma amiga que ri muito, não sei de quê. Acho que o sofrimento fez a sua alma ficar maluca. Talvez um dia eu fique também. É, talvez isso seja o melhor para a minha vida. Você acha que os meus intermináveis dias e noites podem ser chamados de vida? Será que você pode fazer alguma coisa por mim? Desculpe, ninguém está pedindo, mas mesmo sem querer, estou viva. Esse poderia ser o testemunho de uma das centenas de “raabes”. Mulheres – crianças e adolescentes que são usadas na prostituição na Índia. Existe alguém que Se importa muito com elas, tanto que deu a Sua vida para que elas fossem salvas. Jesus não as vê como “raabes”, mas como vidas preciosas para o Pai.

E você? Gostaria de atender ao apelo desta, que aqui fictícia, simboliza cada uma das meninas que gritam por socorro em meio à dor da escravidão sexual? Seja um intercessor e um mantenedor do Ministério “Diante do Trono”, na Índia. Ao comprar os produtos “Diante do Trono” você está colaborando para que essas mulheres conheçam aquEle que verdadeiramente liberta – Jesus – por intermédio dos nossos missionários na Índia.

Boletim IB

 

 
 
   
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