Caso ou não caso
O jovem evangélico de hoje pensa em casamento?
Que muitas pessoas vêem o casamento como uma instituição falida, isto a gente já sabe. Mas... quando se fala na “falência do casamento”, imagina-se que quem pensa nisso são aquelas pessoas que não servem a Deus e tampouco conhecem a sua Palavra e que, por isto, não sabem a importância do matrimônio. Porém, não são somente os não cristãos que pensam assim. Muitos evangélicos acham o mesmo e, por este motivo, sequer pensam no “até que a morte nos separe”, pelo contrário, têm medo de encarar esta realidade.
É complicado imaginar que isso seja verdade no meio evangélico, mas, infelizmente, são muitos os que pensam dessa forma, principalmente os jovens de hoje. Não é sem motivo que vários deles vivem nos gabinetes pastorais procurando respostas para as questões matrimoniais. Namoram há anos e não sabem se querem subir ao altar. “Será que eu caso?”, questionam alguns. Outros namoram várias pessoas da igreja e não definem o que querem.
Algo muito triste que vem acontecendo, é o fato de muitos casais jovens estarem se separando. Alguns casamentos não chegam a durar nem três anos. Isso é o que aconteceu com a comerciante J. A. C. (que pediu para não ser identificada). Após 5 anos de namoro (nesse tempo o casal passou por várias brigas e términos) e dois anos de casada, o seu marido teve um caso extraconjugal. “Quando ele me disse nem acreditei, pois somos cristãos e conhecemos a Palavra. Só sei dizer que estou sofrendo muito”, desabafa J. A. C.
A respeito do casamento, o escritor Paul E. Holdcraft disse algo interessante: “Há casamentos fracassados, mas tal fato não prova que o matrimônio é um fracasso”. Esta é uma verdade que deveria entrar na cabeça de muitos jovens cristãos, mas o fato é que eles estão se espelhando em matrimônios frustrados e acham que o mesmo lhes acontecerá. Em vez de terem a Palavra de Deus como modelo e via de regra, preferem buscar, quase sempre, conselhos em pessoas que vêem o casamento como algo negativo e como uma perda de tempo. É preciso que o jovem busque, na Bíblia, o conhecimento para as áreas da sua vida, assim ele poderá “julgar todas as coisas, retendo o que é bom” (1Ts. 5.21).
E qual seria a solução para esta questão? Segundo o pastor Lúcio Barreto Júnior, líder da Mocidade da Igreja Batista Getsêmani, em Belo Horizonte, ensinar os jovens à luz da Bíblia o que Deus pensa sobre o matrimônio, é essencial. “Devemos mostrar aos jovens que muitos de seus pais quando se casaram não sabiam o que estavam fazendo, ou não eram cristãos, ou construíram um casamento em cima de bases terríveis. Devemos ensinar que o casamento é uma instituição criada por Deus, o problema está quando o homem quer o casamento, mas da forma pecaminosa, da forma errada”, enfatiza.
Mas por que muitos jovens estão desanimados quanto ao casamento? Para o pastor Lúcio, existem dois fatores essenciais que têm interferido na decisão dos jovens cristãos em relação ao casamento: “O primeiro fator é, sem dúvida, o financeiro”, analisa o pastor. “Muitos jovens não conseguem trabalho ou não recebem financeiramente bem, por isso ficam desestimulados em relação ao matrimônio. O segundo fator é a família. Os jovens têm visto dentro de casa, casamentos frustrados e com isso pensam duas vezes antes de se casarem. Querem ser felizes, querem uma família, mas quando pensam em casamento se esfriam porque viram que o casamento dos pais não era algo que os atraísse em nada”, afirma o pastor que é autor dos livros: “Manual de sobrevivência para pais de adolescentes” e “Manual de sobrevivência para adolescentes” Vol. I e II.
O estudante A. T. S. (que pediu para não ser identificado) diz que está desiludido com o casamento. Ele já passou por vários namoros, mas não pensa em se casar: “Sei que estou errado em pensar assim, mas não pretendo me casar tão cedo. Já me desiludi várias vezes nos meus relacionamentos amorosos e tenho medo de sofrer”, conta A.T.S. que tem 25 anos e é evangélico há 10.
“Pessoas que se decepcionam muito, geralmente, têm medo de se entregar de novo, de se abrir para novos relacionamentos. Isso pode durar uma fase e depois passar. A pessoa só não pode deixar que esse medo a bloqueie e a impeça de tentar de novo, pois, com certeza, na hora certa, aparecerá alguém que retribua esse amor”, explica a psicóloga Paula Coaglio de Miranda.
Não há como negar que o jovem cristão sofre todos os tipos de influências. A sensualidade explícita na mídia, é uma delas. Para se ter uma idéia, recentemente um comercial de cerveja mostrava um noivo, no altar, no momento de dizer se aceitava ou não se casar, perguntando à sua noiva se ela permaneceria, digamos, “bonitona” (no comercial foi usado um outro termo que não cabe mencionar aqui) a vida toda. Pois, a mãe da sua noiva, ficara um “bucho”, diz o rapaz do comercial.
A moçada crente hoje em dia tem priorizado o exterior e se esquecido do interior que é o que realmente tem valor para Deus. Sendo assim, muitos rapazes caem nas armadilhas sedutoras das belas “Dalilas” (Jz. 16) espalhadas por aí que nada mais querem do que sugar as suas forças. Muitos caem também nas mãos das “rainhas Jezabels” (1Re. 19; 21.25; Ap. 2.20) que seduzem homens, tirando-os da presença de Deus e incitando-os ao erro.
E as meninas? Muitas delas se deixam levar pelos olhares sedutores dos chamados “príncipes encantados”, que mais tarde se transformam em sapos.
Depois de aceitar a Cristo, esta é a decisão mais importante na vida de um jovem. A motivação do casamento não deve ser outra senão o amor que une ambas as partes, pois só o amor “tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta” (1Co. 13.7). Muitos casam por causa de sexo, isso não assegura um casamento duradouro, pois o matrimônio não é feito somente de momentos de prazer, mas de toda uma vida dedicada a fazer o cônjuge feliz. O jovem cristão que se casa pensando: “Se não der certo, separa”, denota insegurança e, talvez, um medo de não está fazendo a coisa certa. Muitos que casaram pensando assim não duraram nem cinco anos juntos.
O pastor Lúcio fala a este respeito: “Hoje está tudo muito mais relativizado. O jovem de hoje veio de um processo de esfriamento. A música lema da nossa sociedade atual é: `Tô nem aí, tô nem aí´. Atualmente o jovem quer a vitória de Deus, mas se não vier também está bom, se ele sofre está bom, se ele não sofre está bom também, ele joga tudo pro alto”, diz.
Para fechar este texto, segue abaixo um depoimento enviado pela internauta Aline Alves Godinho, 23 anos, Analista de Sistema. Ela é evangélica há 14 anos, namora a seis e está noiva há quatro meses. O seu depoimento reflete um pouco o que se passa na cabeça de muitos jovens cristãos em relação ao matrimônio:
“Sei bem que a experiência de cada um em diversas áreas, inclusive a amorosa, não é única e nem sempre serve como lei universal. Mas, saber ouvir as experiências de outrem ajuda a expandir a forma de vermos as coisas, nos ajuda a compreender pensamentos diferentes. Sei que o que passei e senti em relação ao casamento e ao relacionamento cristão, não vai se adequar a muitas pessoas, mas constantemente pessoas vêm me contar casos de experiências e sentimentos que já passei e acho isso extremamente interessante, porque posso olhar bem nos olhos dessa pessoa e dizer-lhe: ‘Sei exatamente o que está sentindo’. Sempre pensei que lidar com a área amorosa, sendo cristã, seria mais fácil no sentido de ter a ajuda do Senhor e me sentir totalmente certa da decisão que estaria tomando. Infelizmente, acabei misturando muitas coisas na minha cabeça. É muito difícil conciliar coração e mente. Mas conciliar coração, mente, vontade de Deus e padrões que a Igreja coloca é ainda mais difícil! Algo que descobri e realmente eliminei da minha cabeça – em termos de pensamento cristão – é a idéia de que existe um “escolhido” para cada um. Precisei passar por uma experiência com Deus muito profunda para ver isto. Em uma das minhas diversas orações para que Deus me falasse a sua vontade, eu clamava no meu espírito para que ele me dissesse se uma pessoa era a escolhida por ele para ser meu companheiro. Eu queria um “Sim” ou “Não”. Só isso. O que ele dissesse eu iria fazer. A resposta que obtive foi: “Não vou te dizer Sim ou Não porque já te dei maturidade suficiente para que você possa decidir”. Minha reação imediata foi um “NÃÃÃO DEUS!”. Sinceramente não queria que ele me desse a opção de escolher, seria mais fácil se ele dissesse: “É esse, vai nessa”, ou então “É fria, sai fora”. Mas isso não aconteceu, pelo menos comigo. Fui me relacionar com uma pessoa muito diferente de mim. Tivemos que trabalhar muito para que desse certo. Algo que ainda vejo que é realmente difícil, é lidar com a questão da fé. Qual o limite da fé? Até onde eu tenho que perseverar para ficar com uma pessoa? Sinceramente muitas vezes me senti julgada por cristãos por não querer mais perseverar em ficar com uma pessoa. Eu estava cansada, desanimada, ferida e as pessoas só me diziam: “Você precisa ter fé”, “Deus pode fazer milagres”, “Vocês se amam tanto...” E daí? Amar somente é suficiente? Cheguei a conclusão que não. O amor sustenta e traz brilho a um relacionamento, mas ele somente não é suficiente. Talvez você possa estar pensando: “Nossa! Que absurdo! Como você pode estar dizendo isso? O amor pode todas as coisas!”. É, de repente me falta fé mesmo. Mas você não conhece as diversas feridas que há em mim por ter perseverado. Penso que além do amor é preciso ter compatibilidade. Em todos os sentidos: cultural, social, espiritual. Como é importante ter uma pessoa que possa caminhar no mesmo passo e ritmo que você na vida espiritual. Como é importante que as expectativas em relação ao casamento, filhos, educação, ministério e financeiro possam ser parecidas. Isso ajuda MUITO em um relacionamento. É importante eliminar os padrões de relacionamento do mundo que, infelizmente, já estão bastante enraizados na juventude cristã. Igualmente, é importante não espiritualizar muito as coisas nessa área. Ter os pés no chão e, principalmente, não esperar um “príncipe” escolhido por Deus, preparado, moldado, prontinho para você! Devemos saber que nós não somos perfeitos e a pessoa que viermos a conhecer, também não será. A busca pela perfeição em conjunto é algo tremendo e muito edificante em um relacionamento. É o mistério de crescer juntos”. (Aline Alves Godinho)
Ana Paula Costa

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